O primeiro ou o vigésimo ato: Quem são elas?

  Poderiam ser santificadas, amarradas em volta do calcanhar como se por algemas se tornassem a própria ferida. Têm como ânsia, a penetração. Do profundo, daquilo que pode-se mudar ou o imutável. Quem vai entender? Muitos procuram a definição no dicionário, como a quem desvenda o sinônimo da vida em meio à tuas linhas. Se juntam, se ameaçam, formam uma desgraça! Um sacrilégio, no caso, se tivessem relação com a igreja. Ainda sim o mesmo ato desrespeitoso pode ser proveitoso. Quiçá a declaração que não pôde ser expressada, ou aqueles sentimentos que não puderam ser decifrados. Se fazem de poemas, se moldam em cores, e como um geógrafo estuda as definições da terra, vivem de segredos, além das definições perfeitas, são espertas, se escondem! Sem perceberem, têm uma força maior em nós. Velozes. Correm pela caneta num papel sem destreza, como se já tivessem sido nascidas aqui, neste ninho de pecado ao mesmo passo da pena de bondade que discorre dum ato sem sentido. É a ferida que nunca se sara, ou um ato insano da prosa que fora discorrida. São usadas, parte duma anedota que nem mesmo os mais inteligentes poderiam um dia conhecer o âmago.

 Como num ato de amor, elas encaram seu papel, um ator digno de oscar, se pudessem sê-las, elas seriam. A fala do bonzinho, do vilão, do caipira e até do capacho. São feitas para serem usadas, mas e se não existissem, o que seriam? Talvez até este instante não puderam ver o centro do qual a narrativa que discorro. Mas são feitas de polissíndeto, graças à tolos homens, nós, que as usamos sem pudor, vivemos à repeti-las, incansavelmente. Feito uma oração. São verbos, adjetivos, são barcos numa maré! Elas não possuem mente, ainda sim nos rendemos aos teus encantos. Nos afogamos para entendê-las, darmos os nós que da vida fora disposto à mesa.

Não me chamem de louco. Sabem muito bem que por trás de muitas coisas possuem o ambíguo, então não temam por minha loucura. Acabem logo esta narrativa com uma fome, e como a quem dos lábios um litro de saudade fora derramada. Busquem tudo e no final, um bote estará no meio do oceano para aportar toda a tua dor. São dialeto, são ditados, línguas, até desabafos! Quem poderia lê-las? Me rendo todos os dias àqueles que as querem, corro, me afogo sem medo. Por alguma razão tenho a fé maior em lê-las, do que em mim. Afinal, elas foram a lâmina a cortar meu peito, e o antídoto a costurar minha alma. Sim, são as palavras, meus caros amigos.

Aquelas de todas as letras, aquelas que dispõem dum tal entendimento, que sem isto não poderia ser disposta a leitura. Agradeçam àqueles que as juntaram, as fizeram irmãs, cúmplices, fiéis amantes. Agradeçam à cada sutura da alma que numa operação sem anestesia elas operam o bem em vocês. Agradeçam, pois sem tais verbos, não seria possível a comunicação sem fala, ou os sinais por meio de abraços, beijos ou um olhar. Sim, são as palavras. Que num bilhete se transformam num mundo, e num poema, até a canção que será cantada, um hino de esperança, ou um afago para aqueles que sentiam a mão da morte. Podem ser a revelação, ou o já conhecido. Podem ser sua casa, ou o abrigo que ninguém um dia poderá conhecer. Sim, são as palavras.

           (docecolibri)

4/06/2012 @ 10:46
4/06/2012 @ 09:54
Deixem que as palavras se moldam nesta Terra, mudem o rumo das folhas, o caminho das flores, que a liberdade se deleite nesta boca acre sem carta de alforria. Deixem que façam o que querem, que controlem sistemas, que morram afogados em seu próprio veneno, sepultados com ternos que sempre foram seu manto de vergonha. Usemos suas carnes para alimentar os abutres e escreveremos em seu corpo um novo hino de vitória. — (docecolibri)
3/06/2012 @ 10:11
Tua voz aveludada desenha a ponta de um arranhão em meu rosto. Caminha por meus lábios, aporta em meu sorriso sem jeito, acaba com minhas defesas, se alimenta de minhas intimidades. Quem é você? Que me faz escrever palavras sem jeito, me dá forças pra rabiscar além destas linhas, além do tempo. Quem é você que visita meu subconsciente, se alimenta de minhas veracidades, me desnuda com seu olhar impiedoso, me cora com tuas sentenças que mais parecem versos? Quem é você que canta para a vida, porém parece sussurrar dentro de mim? Quem é você que por se fazer tão íntimo se faz tão doído? Que por tanto arranhar, rasga minha pele e me faz sangrar? Diabos! Quem é você que mais parece me sentenciar a morte lenta, mas se mantém neste vício sem chance de abstinência? Chamo os santos, os diabos, os anjos, advogados! Me falem mais desta ferida que me tortura a gritar e provoca gemidos por prazer? Me diz, quem… — (docecolibri)
3/06/2012 @ 09:48
Palavras? Onde?

Palavras? Onde?

3/06/2012 @ 12:19
Dessas nossas tardes filosóficas, transcendentais e nerds

“Eu sei o que você está pensando.

O quê?

‘Por que eu não tomei a pílula azul?’”

Quando você empurrou goela abaixo o comprimido vermelho e tuas pupilas se dilataram numa reação peristáltica, quando você tocou com os dedos no espelho e soube que o reflexo era ilusão, quando os cabelos curtos daquela com quem você descobriria a veracidade dos sentimentos aproximaram-se de tua orelha e fizeram tua nuca arrepiar, no fundo você foi capaz de sentir que o escarlate daquela pílula só era de tamanha intensidade porque referenciava-se à compilação do sangue de todas as almas cegas. O mundo é criação, disso sempre fomos conscientes. Mas, criação de quem? Você tomou a pílula azul por ser curioso e agraciado com ímpeto. Somos graça.

A grande arte só é possível aos ousados que suportam o gosto da suposta e própria morte, porque perder os cabelos e ter que desaprender tudo o que um dia se foi ensinado é desafio para quem sabe ganhar equilíbrio com as quedas. Nem todos os pés percebem que passa-se mais tempo sobre uma única perna do que apoiado em duas. A estética é guerra, a exposição é campo minado e grandes homens são pequeninos quando nus de pêlos e porquês. O ápice da tua espinha dorsal ainda é sensível e consegue captar o invisível, estou certa?

Ninguém nos disse qual a origem exata do furacão que cerca a humanidade e nem as asas de Morfeu seriam capazes de suportar todas as nossas dúvidas e conclusões, por isso nos calamos e conversamos entre olhares ou às escuras. Gosto do som de tua voz quando explana sobre os números na mesma medida em que você aprecia meus olhos quando exponho minha admiração pelo lado direito do cérebro. Nunca soubemos apontar os erros do universo, mas achamos soluções escondidas em sombras e pesares para o que tanto gritam as outras bocas. Você sabe, tudo parte do ventre e do parto. Grandes ideologias iniciam sua corrida nas veias e no pensar a partir do berço, a partir do convívio. Mas alguém saberia lidar com nossas divagações? Deixamo-as guardadas em buracos de muros e arcas sob a areia.

Inerentes são apenas nossos instintos e todo o mais é moldável, nisso faz-se necessária a sociedade. Contudo, como proceder quando o sistema é podre e possui mãos aleijadas que não sabem moldar anjos ou seres conscientes? “O todo não quer a liberdade das partes, por isso as aliena, infecciona e descarta”. Dão pão de graça quando a massa é batizada em veneno e os lábios dos moribundos contentam-se com o passageiro prazer. Nosso desejo sempre foi o de enfiar os dedos em tais beiços e abri-los à força, mas nisso estaríamos traindo nossa própria fantasia de livre-arbítrio. Sabemos que eles não são livres, mas não podemos nós próprios condená-los e condicioná-los à liberdade.

O impasse é este ponto, esta cruzada, passamos os limites de nossos ideais ou aquietamos e assistimos ao espetáculo? Nós poderíamos fazê-los renascer de abrupto, mas apenas jogamos pistas. Nós poderíamos entregar-lhes o mapa, mas somente afundamos pegadas no chão. Seríamos capazes de lhes dar o real, mas eles aceitariam ou considerariam o verdadeiro como verdade? De dar seguimento à vida na qual seus olhos ardem porque nunca antes foram usados, mesmo adultos?

“Eu só posso lhe mostrar a porta. Você tem que atravessá-la.”

A chave está sobre o altar que é vossa perspicácia e filosofia.

Claudia Calado

2/06/2012 @ 11:10
Loucura está impregnada no sentido contrário. Na gargalhada presa ao momento de lágrimas, na comoção numa peça de comédia. D’outro lado da rua com o mendigo sorrindo pro céu, pra menina que prefere brincar a noite, no dentista que passa seus fins de semana pintando suas paredes. No poeta que não faz jus a um poeta só porque escreve seus versos encravando letras nas árvores. Loucura está entre esse vão do que as pessoas enxergam, e além do que elas vêem. Loucura mesmo existe no dicionário dos burros que não se acostumam com nada fora da métrica antiga. — (docecolibri)
2/06/2012 @ 10:07
O homem vangloria-se de ter imitado o vôo das aves com uma complicação técnica que elas dispensam. — Carlos Drummond 
31/05/2012 @ 11:53
31/05/2012 @ 11:39
O segundo que antecede o beijo
A palavra que destrói o amor
Quando tudo ainda estava inteiro
No instante em que desmoronou — Paralamas do Sucesso (via filosofias-de-um-largado)
31/05/2012 @ 08:43

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