Poderiam ser santificadas, amarradas em volta do calcanhar como se por algemas se tornassem a própria ferida. Têm como ânsia, a penetração. Do profundo, daquilo que pode-se mudar ou o imutável. Quem vai entender? Muitos procuram a definição no dicionário, como a quem desvenda o sinônimo da vida em meio à tuas linhas. Se juntam, se ameaçam, formam uma desgraça! Um sacrilégio, no caso, se tivessem relação com a igreja. Ainda sim o mesmo ato desrespeitoso pode ser proveitoso. Quiçá a declaração que não pôde ser expressada, ou aqueles sentimentos que não puderam ser decifrados. Se fazem de poemas, se moldam em cores, e como um geógrafo estuda as definições da terra, vivem de segredos, além das definições perfeitas, são espertas, se escondem! Sem perceberem, têm uma força maior em nós. Velozes. Correm pela caneta num papel sem destreza, como se já tivessem sido nascidas aqui, neste ninho de pecado ao mesmo passo da pena de bondade que discorre dum ato sem sentido. É a ferida que nunca se sara, ou um ato insano da prosa que fora discorrida. São usadas, parte duma anedota que nem mesmo os mais inteligentes poderiam um dia conhecer o âmago.
Como num ato de amor, elas encaram seu papel, um ator digno de oscar, se pudessem sê-las, elas seriam. A fala do bonzinho, do vilão, do caipira e até do capacho. São feitas para serem usadas, mas e se não existissem, o que seriam? Talvez até este instante não puderam ver o centro do qual a narrativa que discorro. Mas são feitas de polissíndeto, graças à tolos homens, nós, que as usamos sem pudor, vivemos à repeti-las, incansavelmente. Feito uma oração. São verbos, adjetivos, são barcos numa maré! Elas não possuem mente, ainda sim nos rendemos aos teus encantos. Nos afogamos para entendê-las, darmos os nós que da vida fora disposto à mesa.
Não me chamem de louco. Sabem muito bem que por trás de muitas coisas possuem o ambíguo, então não temam por minha loucura. Acabem logo esta narrativa com uma fome, e como a quem dos lábios um litro de saudade fora derramada. Busquem tudo e no final, um bote estará no meio do oceano para aportar toda a tua dor. São dialeto, são ditados, línguas, até desabafos! Quem poderia lê-las? Me rendo todos os dias àqueles que as querem, corro, me afogo sem medo. Por alguma razão tenho a fé maior em lê-las, do que em mim. Afinal, elas foram a lâmina a cortar meu peito, e o antídoto a costurar minha alma. Sim, são as palavras, meus caros amigos.
Aquelas de todas as letras, aquelas que dispõem dum tal entendimento, que sem isto não poderia ser disposta a leitura. Agradeçam àqueles que as juntaram, as fizeram irmãs, cúmplices, fiéis amantes. Agradeçam à cada sutura da alma que numa operação sem anestesia elas operam o bem em vocês. Agradeçam, pois sem tais verbos, não seria possível a comunicação sem fala, ou os sinais por meio de abraços, beijos ou um olhar. Sim, são as palavras. Que num bilhete se transformam num mundo, e num poema, até a canção que será cantada, um hino de esperança, ou um afago para aqueles que sentiam a mão da morte. Podem ser a revelação, ou o já conhecido. Podem ser sua casa, ou o abrigo que ninguém um dia poderá conhecer. Sim, são as palavras.